A minha história se confunde com a de milhões de homens negros no Brasil. Sou cria da escola pública, comecei a trabalhar cedo e cresci em uma realidade marcada por privações e desigualdades. Desde muito jovem aprendi que, para a juventude negra e pobre, sonhar nunca foi simples — e realizar sonhos sempre exigiu esforço dobrado.
Meu maior exemplo é minha mãe, dona Carminha, trabalhadora doméstica e mãe solo que criou seus filhos com honra, dignidade e muito esforço.
Como tantos jovens da periferia, conciliei trabalho e estudo desde cedo. Acordava às 5h30 da manhã e muitas vezes só voltava para casa depois da meia-noite. Estudei sempre em escola pública e fiz cursinho popular até conquistar uma vaga na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Escolhi o Direito não como símbolo de status, mas como instrumento de transformação social.
Durante a universidade, atuei junto a movimentos de moradia e acompanhei de perto a luta de famílias que batalham diariamente pelo direito básico a um teto. Foi ali que compreendi ainda mais claramente que a desigualdade no Brasil não é natural: ela é resultado de decisões políticas — e pode ser enfrentada com decisões políticas comprometidas com a justiça social.

Depois de me formar, iniciei o mestrado e retornei a Brasília para atuar no serviço público. No Ministério da Justiça e na Casa Civil da Presidência da República, trabalhei em políticas importantes para o país, como acesso à justiça, regularização fundiária, promoção da igualdade racial, democratização do ensino superior, o Marco Civil da Internet e ações de enfrentamento ao extermínio da juventude negra. Também exerci o cargo de Secretário-Executivo do Ministério da Justiça.
Essa trajetória reforçou em mim uma convicção: o Brasil só vai romper seu ciclo histórico de desigualdades quando quem sempre esteve à margem passar a ocupar os espaços de decisão. É papel do Estado garantir acesso real a direitos como educação, saúde, moradia, segurança e trabalho digno.
Eu sei, pela minha própria história, o que significa crescer em um país que nega oportunidades à juventude da periferia. Por isso, acredito que jovens negros e pobres têm direito de sonhar — e que o Estado deve criar caminhos para que esses sonhos se realizem.
Foi com essa convicção que reuni uma rede de pessoas que acreditam que é possível virar esse jogo. Em 2018, tivemos a honra de protagonizar uma das campanhas mais mobilizadoras da história recente do Distrito Federal, com 83.112 votos para o Senado.
Essa caminhada continua. Porque quando o povo ocupa os espaços de poder, a política muda — e o Distrito Federal também.
